SOTOZEN-NET > Biblioteca > Sermão Mensal > Junho de 2012 - Acções de filantropia – Rigyo 利行 por Rev. Jiso Forzani parte 3
Na primeira parte deste artigo discutimos o contexto deste texto e procedemos à tradução na segunda parte. Na parte final, pretendemos avaliar o que pode significar para as nossas vidas actuais.
O ponto central da questão é simples e claro – trabalhar para o bom de cada um e dos outros, que é um bom único, não dois "bons" separados ou mesmo opostos. Mas ao dizermos isto, dissemos tudo e nada. Se não clarificarmos o sentido do "benefício" e como podemos calcular esse benefício, estas palavras não são mais do que um apelo geral para fazer o bom, de forma óbvia tal como desprovida de significado. Toda a gente diz sempre que devemos fazer bom. Como toda a gente diz sempre isso a toda a gente, por esta altura, o bom deveria prevalecer em todo o lado. Claramente, este não é o caso. Porquê? Uma das razões é o facto do nosso conceito de bom ser relativo. O que consideramos bom depende da nossa escala de valores e os padrões relativos que aplicamos. Depende de quem os aplica, a duração do tempo decorrido, o local, os precedentes, etc. O que é bom para mim pode não ser bom para si, o que é bom hoje pode não ser bom amanhã, o que é bom para o espírito pode não ser bom para o corpo, o que é bom para uma criança pode não ser bom para um adulto, etc. De cada vez que os seres humanos clamam por determinar um valor absoluto para bom ou estabelecer o bom absoluto, apenas surgem desastres e tragédias, porque definir o absoluto não faz sentido o que provoca um curto-circuito na realidade. Mas então, o que significa "benefício" aqui?
Podemos encontrar uma pista no título do texto, onde aparece a expressão rigyo. É claro aqui que o "benefício" significa algo vantajoso, do ponto de vista de bodhisattva. Vamos considerar a definição que apresentamos no início, completando-a da seguinte forma: bodhisattva é alguém que orienta a sua vida seguindo o objectivo apontado por Buda, olhando para o mundo com os olhos de despertar. O mundo do bodhisattva é a paisagem em frente dos olhos do despertado, no momento do despertar do Buda. Este é o ponto de vista do bodhisattva. A tradição Budista transmite algumas "descrições" da visão do Buda neste despertar. Existe uma em particular que escolhi por ser certamente familiar ao Dogen. É evidente um rasto claro disso no texto que traduzimos. De acordo com a tradição Chinesa, no momento de despertar, Buda fez uma proclamação que veio a tornar-se mais tarde uma expressão característica da visão da realidade nos olhos do despertado. Podemos encontrar essa frase em textos Chineses antigos, como o Daijogenron, um texto do período Sui (cerca de 581-618). Também resume o pensamento da literatura Nehan gyo (Nirvana sutra). Em Japonês, esta frase diz "so moku kokudo shikkai jobutsu" 草木國土悉皆成仏. Numa tradução livre, significa "Todos os seres vivos, com consciência e sem consciência, todos vêm agora para ser Buda". Não existe o mínimo sinal de separação entre Buda e o mundo – no preciso momento em que Buda é Buda, tudo é Buda. Esta é a posição que um bodhisattva assume para si próprio(a) e para o mundo.
O senso comum diz que todas as pessoas vivem a sua própria vida, pelo que devemos olhar para os nossos próprios interesses, mesmo à custa dos outros. No mundo visto pelos olhos de bodhisattva, não funciona desta forma. A minha vida não existe aqui sem a sua, nem a sua existe sem a minha e, em caso algum, os meus interesses podem estar em conflito com os seus. Assim, cuidar do o mundo é cuidar de mim. Não pode existir nada que seja bom para mim e mau para os outros. O mal dos outros, de alguma forma, volta para mim.
Este é o valor mais alto. Aliás, podemos dizer que é o único valor. É o tesouro escondido ao alcance da mão, de acordo com o qual devemos formatar o nosso comportamento.
"Acto de beneficência" é testemunhar com o nosso próprio comportamento este entendimento da realidade, partilhando desta forma com outras pessoas, porque aqui resta o benefício completo. Mas "bodhisattva" significa também saber que não sou Buda, que sou um ser humano condicionado pelos meus próprios limites constitutivos. A visão do Buda, para mim, é uma visão de fé que os meus olhos humanos não me concedem. Como posso inspirar o meu comportamento para a visão descrita anteriormente sem fingir ser o que não sou, de ver o que não vejo?
Tenho facilmente disponível um instrumento simples e fundamental que me permite colocar-me nesta posição de fé – a postura zazen. Em zazen, a discriminação entre eu próprio e os outros, entre o mundo do despertar e o mundo condicionado não é considerada. Simplesmente sentado em silêncio, desperto e liberto de qualquer relacionamento, estar sentado em zazen é estar na posição de "trabalhar a fé" 信行. A posição de zazen é o padrão da acção benéfica, a atitude básica à qual voltamos, trazendo-a para qualquer momento, para qualquer situação da nossa vida.
Se nos imbuirmos deste espírito, a verdade de nunca afastarmos e nunca mudarmos os actos de beneficência (expandindo) de cada um para a relva, a madeira, o vento e a água torna-se verdadeiramente um benefício. Assim, a única coisa a fazer é cuidar de salvar os tolos, sabendo que o primeiro tolo a salvar sou eu que escrevo, por quem está a ler.